Ler Ainda Pode Ser Lazer? A Maratona Sem Fim das Estantes Cheias
- 4 de set. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 6 de set. de 2025
Como comentei no texto anterior, voltei ao meu hábito de leitura. Logo de cara, peguei dois livros emprestados: um sobre Tarsila e outro da autora Lilia Guerra. Iniciei um deles, mas não me segurei e a vontade de começar o outro já bateu.
Foi aí que uma voz na minha cabeça (e você sabe que voz é essa) me disse: "Leia os dois. Você sabe que ler vários livros ao mesmo tempo aumenta a concentração, o uso do cérebro e blá blá blá".
E já incio informando que não estou falando de leituras acadêmicas ou da pilha de livros obrigatórios da universidade. Falo de um hobby, de uma leitura prazerosa, escolhida a dedo, indicada com carinho.
É ai que te questiono:
De onde vem essa urgência de transformar um hobby, focado em prazer e atenção plena, em mais uma corrida de ratos?
De onde vem a pressão para que a leitura se torne mais uma tarefa na nossa lista, nos tirando a paixão genuína e nos entregando apenas uma lista de livros lidos, para serem ostentados nas redes sociais?

A Prova da Produtividade
Quando penso nisso, me parece que somos levados a crer que, para se dizer um leitor, é preciso comprovar. E a prova vem em uma lista de dezenas de leituras concluídas em um único mês. Mas, precisamos mesmo disso? Quem fiscaliza essa lista? Quem bate o martelo e diz que ela é curta?
Quanto mais reflito, mais me volta a ideia de que estamos sendo forçados a ser produtivos até mesmo no lazer. Já falamos sobre isso aqui no blog no texto sobre Foco, nele eu abordo o tema da cultura da exaustão que nos mantém andando e andando, sem um rumo certo. Parece que todos estão indo para a mesma direção, mesmo que tenhamos sonhos e objetivos diferentes.
Lembro da Gabi Oliveira - link do seu canal no youtube -, que fala em um vídeo sobre como, mesmo sendo mãe, ela lê sempre que tem um tempo. Aqui é entender que ela lê por querer ler, deixando que seu foco não centralize em o quanto está lendo. Mesmo que signifique apenas um parágrafo, ela leu e está feliz com isso. É exatamente isso que eu quero: ler por prazer, demorar três meses em um livro e ser feliz com cada página.
A Compulsão Disfarçada de Lazer
Para mim, essa cultura da pressa na leitura é só mais uma forma de nos manter focados, porém, sem foco. E sinto que, quanto mais a vida cria responsabilidades, mais eu preciso de tempo para hobbies, como manda o 'manual do adulto perfeito'. O problema é que, agora, esses ‘hobbies’ parecem ter que ser medidos e quantificados, deixando de ser meu momento de lazer, e sim, mais uma tarefa obrigatória.
O público-alvo, em sua maioria jovens adultas, é inundado pela ideia de ter vários títulos, mas, na vida real, ninguém tem tempo para ler todos eles. Então, a solução que nos é vendida é: "Leia vários ao mesmo tempo, assim você consegue acabar a sua lista e comprar mais." Você percebe onde isso nos leva? A compulsão em comprar volta a ser discutida, e a pressão por comparação ganha ainda mais força.
Se você já leu meus posts sobre brain rot e foco, lembra que falamos sobre o loop de iniciar tarefas e nunca terminar? Pois bem, esses dias, rolando o feed, ouvi a Nat Geremias - link do vídeo no instagram - falar exatamente sobre pular de projeto em projeto sem concluir nada. E é aqui, que os pensamentos se amarram, esse é o ponto chave dessa compulsão e a pressa na leitura, onde mesmo sem terminar os livros que estão ali, na sua frente, damos incio a um mais novo, um recém chegado a coleção.
Para mim é um delírio sem sentido, sustentado apenas por um ciclo vicioso. Com isso, trago esta frase que se encaixa muito bem aqui "Nada te prende de verdade, por isso, você abandona com mais facilidade." E é assim, que se acumula estantes lotadas de livros, é simples, mas um ciclos muito eficaz.
A Tristeza da Estante Cheia
O sonho de ter uma biblioteca imensa, como a da Bela em A Bela e a Fera, é o auge para muitas meninas, que cresceram nesta época e hoje no mercado de trabalho, carregam esse desejo. No entanto, o que era um sonho se transformou em um consumo insustentável. O que é vendido não é mais a leitura, mas sim a posse. E eu sei, essa é uma discussão profunda, cheia de lacunas e com uma ponta de crueldade vista de todos os ângulos.
É um sistema que diz: "Já que vocês, meninas que leem, não gastam rios em produtos, ou não estão sempre comprando mil roupas de forma compulsiva, vamos criar uma forma de transformar esse hobby em pura aparência e performance."
Prateleiras cheias, porém, muitos desses títulos sempre serão apenas o próximo item de uma lista gigante, uma lista que muitas das vezes não é pensada para ser concluída e sim exibida. Logo atrás, vem um carrinho lotado de mais compras online, com mais, e mais livros.

Isso não é uma crítica a quem sonha em ter suas prateleiras recheadas de seus títulos favoritos, mas um alerta, a entender, se é o que você quer, ou o que te fazem acreditar que é o único jeito para ser completa, uma leitura de respeito, onde só aí seu hobby será validado.
Penso, que assim se perde o real prazer em ler, a calma em se mergulhar em paginas contendo mundos inteiros, e suas milhares histórias. Pois, sempre tem a pressão de quando acabar esse, já tem outro a espera, e mais outro e outro, todos na sua estante, te olhando dia e noite.
Eu tenho em mim, o gosto em pegar livros emprestados, de amigos, instituições, escolas e variados, acredito que por conta de nunca ter condições para comprar livros, durante minha vida quase toda, somente a permissão de pegar emprestado. Apesar de parecer triste, percebo que por esse motivo não me permito ter uma estante lotada, só pontuais, e hoje, mesmo tendo a facilidade em comprar online, não me agrada pensar que assim que terminar a leitura, eles ficariam ali, parados.
Entendo que é um jogo de sorte, e não é tão fácil achar títulos e autores diferentes ou atuais, em sebos, porém, mesmo assim, ainda me arrisco só pela diversão em garimpar.
Minha reflexão fecha com um medo. O medo que, agora que voltei a esse hobby, eu sinta a obrigação de ter que me provar constantemente sobre algo que não há necessidade. Onde se eu não obter minha própria pilha de livros, amontoados e pegando pó em uma instante, eu não ganho o 'selo de leitora'.
Se você é um(a) leitor(a), me diz: você também sente essa pressão de ler vários títulos ao mesmo tempo? Você consegue ler por prazer? E esse sonho em ter uma biblioteca em casa, veio da onde?



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