Tantas Oportunidades, Nenhum Foco: O Que a Cultura da Exaustão Faz com a Nossa Realidade
- 7 de ago. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 24 de ago. de 2025
Somos bombardeados com tanta informação, tantas oportunidades, uma cultura da exaustão que nos engole diariamente, onde nunca podemos parar, nunca podemos descansar. A sensação é de um sufocamento constante, e em meio a tudo isso, uma pergunta me persegue: Essa corrida desenfreada por ter mais, por saber mais, por querer mais… ela é para quê?
Esses dias, ouvi uma frase sobre abandonar leituras. Sabe, aquele ato de parar um livro por não se conectar, ou não gostar dos temas? A questão é que, com tantas indicações, tantos títulos, tanta informação, acabamos parando milhões de leituras que, com calma, não precisavam ser paradas. Nada te prende de verdade, por isso, você abandona com mais facilidade.
Foi então que em um vídeo da Gabi Oliveira, ouvi ela falar sobre o ritmo da leitura: 'Todo livro tem um ritmo mais lento, e isso acaba com a gente, que tem tudo tão rápido, conteúdos com começo, meio e fim ágeis'. E ela completou: 'Mas mesmo em um ritmo lento, o livro uma hora vai chegar no fim, seja mais cedo ou mais tarde'.
Aquilo me deu um choque de realidade. Quantos livros abandonei porque não conseguia ler mais de 10 páginas por dia, como no meu auge da adolescência? Parei por achar que era devagar demais, mas a lentidão é o propósito dos livros! É por isso que existem parágrafos e mais parágrafos de descrição, e detalhes. É um trabalho de imaginação constante e lento. Aquilo bateu forte no meu estômago e me deixou pensativa por dias.

Veja completo o vídeo citado da Gabi Oliveira "voltando a ler livros e reduzindo o uso do celular"
Em contraste, essa semana ouvi a frase de um amigo: 'Vivemos com tantas oportunidades e nenhum foco'. E aí a dor e o sufocamento do começo do texto, volta. A dor de não conseguir focar em algo, de iniciar e não terminar, de achar que não vale a pena porque não me tornei a melhor logo de início. Mesmo que pareça clichê, é tão real que consigo sentir em minhas mãos o peso dessa exaustão, do 'não parar'. A pressa de ir para o próximo projeto, o próximo trabalho, o próximo hobby, a próxima relação, sem pensar muito, como se descansar entre eles fosse uma perda de tempo.
Mas que próximo é esse? Para onde ele vai me levar? Eu realmente quero esse próximo? Ou é só porque tenho medo de parar?
Eu tenho comigo o ritual de descansar entre fases. Antes de iniciar em uma nova empresa, um novo relacionamento ou até uma nova série, eu me dou um tempo de descanso. Um tempo para analisar o que acabou de me acontecer e ver o que eu quero (e o que eu não quero) que se repita. O que fiz que me envergonhou, e o que me fez se orgulhar. Isso leva tempo. Focar, analisar e decidir meu 'próximo', com consciência.
Sei que falo muito sobre estar presente e ser consciente, mas acredito que esse é o único jeito de não dar murro em ponta de faca. É o único jeito de não se deixar levar por carência ou mágoas. Até mesmo com séries! Eu me jogo de cabeça, maratono sem pausas e, quando termina, me sinto 'órfã'. Por me sentir vazia, logo que finalizo, já me volto para outra. Fico refém de um ciclo. E quando estamos presos em ciclos — afetivos, financeiros, viciosos — somos reféns de um padrão, mas um refém consentido, porque estamos lá por nossa conta e risco. A única forma de ver se algo é um ciclo vicioso ou uma escolha genuína é com o afastamento.
E quando penso em oportunidades, penso na grande São Paulo. Nascida e criada aqui, sinto que posso tudo, tenho acesso a tanto, mas nem sempre tenho como ir, ou tempo, ou os mil problemas que a vida adulta traz. Não é sobre 'chorar pitangas', mas sobre olhar sua realidade e ter os pés no chão, saber onde esta pisando, por onde passou e de onde veio. As oportunidades são tantas e, ao mesmo tempo, tão confusas e focadas para poucos, que difere da realidade de muitos, com tantos caminhos e com tantas promessas, que a maioria só tem uma meta: ganhar dinheiro. Mas sem foco, sem rumo. E é por isso que tantos ficam estagnados.
Quando falo de foco, vejo uma lacuna enorme. O que é ter foco? É acordar 4h da manhã? É ter burnout aos 25 anos? O foco é tão perdido que, até para falar dele, estamos desalinhados. Mas para mim, o foco esta em ver o que você deixou para trás. De olhar, de analisar, de refletir. Não é só copiar o que outros gritam fazer (e que talvez nem eles façam). Não é só persistir, mas ter o porquê de persistir. Quando não refletimos sobre as decisões que tomamos, e por que as tomamos, ficamos à mercê dos sonhos e do sucesso dos outros, e não do nosso, porque estamos cansados demais para construir o nosso.
"É olhar sua realidade e ter os pés no chão, saber onde esta pisando, por onde passou e de onde veio."
A cultura da exaustão é o resumo de tudo isso. Ela nos promete riquezas, nos vende poder e nos coloca em ciclos que não levam a lugar nenhum. E no fim, estaremos gratos, mas não melhores, não maiores, não à frente. Uma sociedade que cultua o 'não dormir', o 'não parar', o 'não focar' para que não percebamos onde estamos de verdade.
Por isso, escrevo de todo coração que, para aproveitar as oportunidades — de uma boa leitura, de um bom projeto, de uma boa viagem —, é preciso ter o foco para traçar seu rumo e, principalmente, de pausar. De descansar. Porque uma mente cansada é um corpo no automático. E um corpo no automático é um refém consentido, de mais um 'próximo'.



Que texto lindo , me fez refletir sobre como estamos sempre nessa pressa de ser e fazer algo , de querer ver tantas séries e parar muitas , tanto porque não fui fisgada quando porque não tenho a paciência de uma novo episodio ser lançando .
Palavras maravilhosas amiga,parabéns pelo trampo foda !